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segunda-feira, 30 de julho de 2018

UMA AFIRMAÇÃO DA PRESENÇA




UMA AFIRMAÇÃO DA PRESENÇA
Centro Cultural Correios
Rio de Janeiro/ 25 de julho de 2018
O PROJETO ACESSO ARTE CONTEMPORÂNEA # SEXTA EDIÇÃO
www.acessoartecontemporanea.com

Em época de selfies, as curadoras Lúcia Avancini e Marilou Winograd convidaram 70 artistas para desenvolver sua selfie conceitual. Fazer de sua obra a imagem de si próprio, referenciada aos autorretratos produzidos ao longo da História da Arte. Uma afirmação da presença do artista, memória de estar visível, prova de estar incluído no mundo.

O tema é o artista na obra, o artista como obra e o artista como testemunha da obra. A proposta é cada artista convidado criar uma obra que gere uma ponte entre a referência conceitual da obra de qualquer gênero ou época escolhida por ele e o olhar contemporâneo.
Será ocupado todo o terceiro andar do espaço cultural.
12 ARTISTAS FARÃO AÇÕES PERFORMÁTICAS NA INAUGURAÇÃO.
Segmento: objetos, pinturas, fotografias, instalações, vídeos e performance
Participantes:
ALETEIA DANELUZ ALINE REIS ANA BIOLCHINI ANA HERTER ANALU NABUCO ANDRE BAUDUIN BB SCHMITT CAROLINA KAASTRUP CHRISTINA AMARAL CLÁUDIA LYRIO CLAUDIA MALAGUTI COLETIVO PAPAIMAGEM CRIS CABUS DORA WAINER EDA MIRANDA ELMO MARTINS ENEAS VALLE FABIO BOLA FERNANDA CHEMALE GILDA SANTIAGO ISABELA FRADE JAQUES FAING JOÃO MAIA/INGRID MARTINS JULIE BRASIL LAURA BONFÁ BURNIER LEA SOIBELMAN LÍGIA TEIXEIRA LÚCIA AVANCINI LUCIA FIGUEIREDO LUCIA LOPES MENEGHINI LUCIO VOLPINI MABEL SPINOLA MARCELO REZENDE MARCIA CLAYTON MARCIAH ROMMES MARCIO GOLDZWEIG MARCO ANTONIO PORTELA MARCO CAVALCANTI MARCUS NEME MARIA CHERMAN MARIA LUCIA MALUF MARIA PACE MARILENA MORAES MARILOU WINOGRAD MARIO CAMARGO MARK ENGEL MIRO P.S MONICA MANSUR NEY VALLE NICE FRANÇA O CÍRCULO PATRÍCIA TAVARES PAULO JORGE GONÇALVES PETRILLO RAQUEL ROMERO FAZ REINALDO COTIA BRAGA REZA TAVAKOL ROSELANE PESSOA SANDRA FELZEN SANDRA MACEDO SANDRA SCHECHTMAN SHALA FELIPPI SILVIA SANTIAGO TCHELLO D'BARROS THEREZA CARVALHO VANIA PENA C VANJA FREITAS/CLAUDIANA COTRIM VERA BUENO VINICIUS BALARINI YOLANDA FREYRE

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

CAMINHOS

No início do ano caminhei com meu manto para coletar registros e executar minha ação em um local não muito longe de onde moro, na encosta do rio foi surgindo casas irregulares de pessoas que sem um lugar para colocar suas famílias e por medo da violência da favela ali encontram um solo para seu lar. Eles indagavam o que eu estava fazendo e ficavam curiosos. O dono da casa que por sinal pude produzir o que eu considero o melhor registro ofereceu suas paredes e me pediu que eu fizesse um permanente lá. Concordei ,mais jamais poderei cumprir. Ontem, dia 23/12/2016 véspera de natal a prefeitura protegida pelos seus cães da PM chegaram com ordem de despejo e colocaram no chão todas as construções. Só dando uma hora para que os moradores retirassem seus pertences . A desolação e a falta de perspectiva era assustadora. Geladeiras, trouxas de roupa, moveis desmontados panelas ...Seres humanos sentados ao meio fio sem saber o que fazer. A PM queria escoltá-los para a entrada da favela e eles se recusaram a este êxodo. Um outro problema surge: O local onde eles tinha as casas irregulares eram o que se chama favela de asfalto e é área do comando vermelho. A favela que a polícia quer que eles se escondam na sua faxina urbana é comandada pela facção A.D.A. Isso gera problemas para quem vive estas realidades . Lá eles são personas não gratas mesmo sem nunca terem sido parte de nenhuma facção. Alguns se depositaram embaixo de uma ponte próxima, um lugar que é deposito de lixo e chão de lama e outros esperam na rua a horda de policiais para próxima imposição a força ou que apareça uma outra oportunidade que eles não tem ideia do que possa ser. Desolador.
Estamos organizando cestas básicas aqui perto para que eles tenham o que comer neste natal. Natal este que será a cara da atual realidade brasileira_ Amarga, pesada e sem esperança. Paulo Jorge Gonçalves








quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

MANTO

Manto
substantivo masculino
  1. 1.
    vest capa de grande cauda e roda, presa aos ombros, us. por dignitários em atos solenes.
  2. 2.
    vest veste comprida e sem mangas, para cobrir a cabeça e o tronco.
  3. 3.
    vest hábito de algumas religiosas.
  4. 4.
    fig. aquilo que cobre, que se estende ou alastra sobre.
    "o m. verde das pastagens"
  5. 5.
    fig. escuridão, trevas.
    "o m. da noite"
  6. 6.
    fig. motivo que se declara para ocultar a verdadeira razão de algo; disfarce, véu.
    "o m. da falsidade"
  7. 7.
    anat.zoo dobra do tegumento de moluscos e braquiópodes, responsável pela secreção da concha e pela formação da cavidade do manto; pálio.
  8. 8.
    anat.zoo carapaça das cracas.
  9. 9.
    anat.zoo parede do corpo das ascídias, situada entre a túnica e a cavidade atrial.
  10. 10.
    p.ana. morf.zoo pelagem, plumagem ou região do dorso dos animais, cuja cor difere do restante do corpo.
Origem
⊙ ETIM lat. ibér. mantus < lat.tar. mantum,i 'manto'

terça-feira, 26 de maio de 2015

DA SÉRIE INSERÇÕES - AYABÁS



As Ayabás


Nenhum outro som no ar pra que todo mundo ouça
Eu agora vou cantar para todas as moças
Eu agora vou bater para todas as moças
Eu agora vou dançar para todas as moças
Para todas Ayabás, para todas elas
Eu agora vou cantar para todas as moças
Eu agora vou bater para todas as moças
Eu agora vou dançar para todas as moças
Para todas Ayabás, para todas elas

Iansã comanda os ventos
E a força dos elementos
Na ponta do seu florim
É uma menina bonita
Quando o céu se precipita
Sempre o princípio e o fim
Iansã comanda os ventos
E a força dos elementos
Na ponta do seu florim
É uma menina bonita
Quando o céu se precipita
Sempre o princípio e o fim

Obá - Não tem homem que enfrente
Obá - A guerreira mais valente
Obá - Não sei se me deixo mudo
Obá - Numa mão, rédeas, escudo
Obá - Não sei se canto ou se não
Obá - A espada na outra mão
Obá - Não sei se canto ou se calo
Obá - De pé sobre o seu cavalo
Obá - De pé sobre o seu cavalo
Obá - De pé sobre o seu cavalo
Obá - De pé sobre o seu cavalo
Obá - De pé sobre o seu cavalo
Obá - De pé sobre o seu cavalo
Obá - De pé sobre o seu cavalo

Euá, Euá
É uma moça cismada
Que se esconde na mata
E não tem medo de nada
Euá, Euá
Não tem medo de nada
O chão, os bichos
As folhas, o céu
Euá, Euá
Virgem da mata virgem
Virgem da mata virgem
Dos lábios de mel
Euá, Euá
É uma moça cismada
Que se esconde na mata
E não tem medo de nada
Euá, Euá
Não tem medo de nada
O chão, os bichos
As folhas, o céu
Euá, Euá
Virgem da mata virgem
Virgem da mata virgem
Dos lábios de mel

Oxum... Oxum...
Doce mãe dessa gente morena
Oxum... Oxum...
Água dourada, lagoa serena
Oxum... Oxum...
Beleza da força da beleza da força da beleza
Oxum... Oxum...
Oxum... Oxum...
Doce mãe dessa gente morena
Oxum... Oxum...
Água dourada, lagoa serena
Oxum... Oxum...
Beleza da força da beleza da força da beleza
Oxum... Oxum...
Oxum... Oxum...

domingo, 5 de abril de 2015

FAZER/PENSAR/VIVER...ARTE

Não consigo me cansar da arte. Levei a vida toda perseguindo e levarei todo o restante na busca. Quando se olha algo que te toca e atinge fundo no peito. A poesia mais que perfeita foi cumprida. Ver arte, vivenciar a arte, fazer arte e pensar arte...É como orgasmo. Mas não se iluda, arte também é fugir do obvio e do fácil, destas convenções quero distância. Deixem-me longe dos seus fetiches e me apresente seus cânticos e ai conversaremos novamente sobre esta mais que palavra, este enigma...ARTE.

domingo, 18 de janeiro de 2015

EXPOSIÇÃO COLETIVA - "AFLUÊNCIA".

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=696118920486125&set=pcb.696121870485830&type=1





 "Temporada 2015 da Galeria do Café Baroni -Abertura dia 22/01-17 h coletiva “AFLUÊNCIA” a.flu.ên.cia. Representa situação de aumento ou elasticidade de situação ou coisas em quantidade além do normal, abundância, afluxo, convergência, enxurrada, festival, profusão. Fluxo, acesso, concentração, junção, reunião, aluvião, poder, movimento, série, mundo, chuva, confluência, mar, trânsito, frequência, oceano. Diz-se do rio, riacho ou córrego que despeja suas águas em outro maior. “Afluência” representa nossa proposta conceitual para o ano de 2015 no Café Galeria,ela é nossa palavra chave, nosso avatar. Com “AFLUÊNCIA” abrimos nosso ano expositivo. Algumas obras que fazem parte da mostra"

Artistas: andréa facchini, ana tavares, antonio bokel, américa cupello, clarisse tarram, claudia hirszman, eduardo mariz,fábio carvalho , flávio colker, john nicholson, jorge calfo, jung wladimyr, leonardo ramadinha,luiz carlos carvalho, marcio zardo, marcelo oliveira, marco antonio portela, mirela luz, osvaldo carvalho, paulo jorge gonçalves, raimundo rodriguez.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

PAULO JORGE GONÇALVES POR DENISE RAMOS

Paulo Jorge Gonçalves é o artista plástico que consegue arrebatar em minha alma; em meu sangue. É quase visceral para mim. Suas obras sejam elas aquarelas, xilogravuras, fotografias ou o grafite, São movimentos em direção ao meu olhar, inquietando-o tanto que uma imobilidade envolve meu corpo e não consigo sair de frente da obra até que seja totalmente assimilada pela minha essência de historiadora, mas mesmo sem o racionalismo que nos é peculiar.
Passo pela História de forma atemporal e sinto profundamente o sagrado Feminino no que faz. Parece-me um traduzir da ancestralidade feminina, pois utiliza as formas circulares sempre em comunhão com outro elemento, como se gerasse vida em cada traço que se conecta com o todo da tela.
Eu considero a obra útero ( uma técnica mista feita de aquarelas,  grafite e com seu  ovo no centro que é uma impressão xilográfica), como a melhor expressão deste feminino. Extremamente forte, como uma possibilidade de geração de algo, extremamente novo, provocante e transformador dentro de mim assim que consigo parar a contemplação.
Não há inércia na obra de Paulo Jorge Gonçalves, tudo se realiza no movimento em espiral em direção a quem vê. E como se o vento passasse e trouxesse todos os odores da vida, os perfumes mais efêmeros, a saudade daquilo que ainda não se vislumbrou.
Já possuo a obra : “ Quadrado negro sobre poste” em minha sala, na qual termino meu dia , numa pequena galeria de arte, ao lado de Darel, Iwao e Estella Canziani. A arte rememora, fortalece, inquieta, esculpe novas formas em nossa alma, imprime vida ao dia-a-dia que se torna morno ao longo do tempo.
Uma obra de arte em um ambiente o torna sagrado. Tão sagrado quanto nossos ancestrais, pois nos lembra sempre que a vida é fluídica, provocadora e acima de tudo, que tem momentos únicos que não podem ser perdidos, precisam ser registrados, por nossas retinas ou pelas mãos, olhar e coração de um artista como Paulo Jorge Gonçalves.

Texto Denise Ramos

Mestre em História comparada da Universidade federal do rio de janeiro (UFRJ) , Pesquisadora associada ao grupo Poderes e vulnerabilidades ( UFRJ), pesquisadora associada ao laboratório de Estudos da Diferenças e desigualdades Sociais ( LEDDES) ligado à Universidade do Estado do Rio de Janeiro ( UERJ)




sexta-feira, 31 de outubro de 2014

EFEMÉRIDES ORGÂNICAS - TEXTO MIRO MENDONÇA


A exposição “Efemérides orgânicas” é repleta de referências às origens da vida: úteros, ovos, ninhos e casulos visitam a mente fértil de Paulo Jorge Gonçalves em obras que simultaneamente se relacionam a vidas efêmeras e duradouras. Formas esféricas e ovais navegam por mundos muito distantes, percorrendo habilmente o micro e o macro através de seus pincéis, goivas e fotografias. Mas Paulo não se contenta apenas com as obras dentro de molduras. O artista se aventura a experimentações menos convencionais, interagindo com os espaços da galeria e adjacência, contribuindo para que o espectador compreenda as várias nuances do sugestivo título da exposição. Se por um lado, os corpos celestes atiçam nossas curiosidades astronômicas, os micróbios nos remetem às horas debruçadas sobre microscópios nas aulas de biologia. Paulo mistura estes mundos, o micro e o macro se fundem e o orgânico e inorgânico se diluem. É tudo ao mesmo tempo. Uma fecundidade de universos que provocam o renascimento a cada nova investigação. E isso dá vida a suas obras. E é disso que Paulo quer falar. Da vida e da forma como a maternidade a acolhe. o que inspira a analogia com a explosão de vida das efeméridas, insetos que tem apenas um dia de vida como adultos e investem toda sua energia para simultaneamente reproduzir e perpetuar sua espécie. E o ciclo se completa.


CURADORIA: Miro Mendonça

sábado, 30 de novembro de 2013

TEXTO DE JC ANJOS SOBRE A MOSTRA NOTAS GRÁFICAS NO BLOG VAGAMUNDOS

A arte que reverbera musica e uma outra exposição cuja a divulgação não faz jus a semana pós-Zumbi.



Notas gráficas – gravuras contemporâneas.

Seria um crime de minha parte deixar de visitar uma exposição que fica a 20 minutos de ônibus da minha casa. Ainda mais, uma exposição que de fato responderia minhas expectativas. Digo isso porque as exposições que eu tenho visitado aqui na baixada não foram muito estimulantes. A maioria simulacro de exposições. Porque no fundo não abordavam nenhuma discussão limitando-se a meros objetos exóticos nos trazendo sensações de deja vu. Nada mais que isso. Talvez isso se dê pelo fato das instituições, que organizam estas exposições, não levarem o publico longe dos centros urbanos (e em especial da baixada) tão a sério. Se for uma falsa impressão de minha parte pode até ser. Mas indícios é o que não faltam.
Mas existem pessoas sérias que apostam na arte e nas pessoas sem distinções. Pessoas sérias cuja preocupação é provocar diálogos entre o público.  Aqui no caso, a gravura o publico através de outro diálogo. Com a musica.

E funcionou. No momento em que estive na exposição pude ouvir alunos de escolas publicas debatendo sobre as obras e seus “ruídos” que escapavam daqueles quadros e emanavam pelo labirinto da galeria. Ruídos visuais. Compreensíveis dentro de sua linguagem. 

A minha ida já valeu pelo fato das colagens (que para mim é uma grande paixão nas gravuras) terem um destaque fundamental nas composições dessas obras. Elas se assumem como colagens, mas meio que quebram a harmonia perfeita de suas notas buscando assim o improviso. Obras como as dos artistas Mario Goldzweig  (Jazz & Bossa); André Miranda (Black) me remeteram ao lúdico, da época de minha infância em que eu colecionava álbuns de figurinhas. Loo Stavale em obras como Dança Selvagem carrega toda a sua carga disco music em um perceptivo espirito fanzineiro. Sua deusa Shiva, divindade feminina e “não-grega”  transita através dos tempos. Em suas mãos, ao invés de elementos de sacrifícios, instrumentos musicais; o Jazz de Paulo Jorge Gonçalves nos permite ver todas as suas notas escapando da harmonia convencional e assim criando ruídos. Enfim, Marcelo Oliveira, transita entre o popular e o erudito, quando mescla estas vertentes culturais de nossa realidade social tão oposta em simples convites ou entradas de shows, pondo em cheque o que é legitimado como musica e o que é apenas ruído inculto.

 A exposição vale a pena ser visitada. Primeiro porque ela estabelece diálogo com outro evento no Sesc de Nova Iguaçu (Sesc Amplifica Bossa & Jazz) em que a musica presente irá proporcionar novas formas de ver a arte e vice-versa; e sobretudo, os artistas aqui envolvidos são pessoas cada vez mais interessadas em aproximar um publico, não especifico, mas de formar novas públicos fora do eixo centro-zona Sul.  Mas vá logo porque esta exposição só vai até o dia primeiro de dezembro.

Consciência humana- as essências da afro-brasilidade.

Exposição não divulgada sequer pela instituição (até este momento que escrevo). Talvez eu esteja realmente imaginando coisas só porque esta exposição trata uma questão ainda não muito resolvida em nossa sociedade: consciência negra. Ou questões raciais, como preferirem. Mas o assunto é o mesmo. Eu, ao visitar a exposição Notas gráficas – gravuras contemporâneas, a convite de uma amiga que tem seus trabalhados expostos nesta exposição (Loo Stavale), casualmente percebem (e fui presenteado por isso) que ali que havia uma outra exposição que sequer foi citada em nenhum canal de mídia ou ao menos na internet, ao menos na semana da consciência negra.   

Mas enfim, por conta destes detalhes fico aqui sem saber ao menos o nome do curador e os principais motivos que fomentaram o projeto. Mas não deixo de mergulhar nela. E o que vejo é uma aula do quanto à arte de fato não é domínio de poucos privilegiados. Ela é acessível a todos. Todos nós somos capazes de fazer arte sem um gênio artístico.
 A exposição em si funciona como memória. Mas não uma “memória primitiva” como teimamos em estigmatizar um povo; uma etnia. A memória é uma memória contemporânea. Do lugar. Do aqui agora, mas ainda prestando respeito com o passado. Esta memória é a nossa diáspora. É aqui que devemos assumir nossa afro-brasilidade.
Instrumentos étnicos que são aqui reproduzidos por artistas contemporâneos (Fallou Diop), e esculturas que remetem a Giacometti Fanta e Falla Dioup e as fotografias documentais e cotidianas de Ymoraz 2007/2008, nos levam ao velho continente africano. Longe das imagens desgastas do sofrimento, mas de um povo que tenta se reerguer no pós-colonial. Imagens magnificas de extrema beleza estética.
Mas certamente é na série Cartão postal do instituto de alunos d’Espoir, Senegal, 2011, que passamos a entender que a arte é de fato a própria vida, logo, toda a vida é obra de arte. E somos criadores, logo, capazes de produzir arte. E isto fica evidente nos seus retalhos de tecido sob papel cartão.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

JAZZ,BOSSA NOVA E SAMBA: RITMOS GRÁFICOS

Paul Klee e Wassily Kandinsky investiram nessa relação entre som e imagem e podiam compor, em cores, um universo que tem raiz nas particularidades sonoras das estruturações musicais.
Já as partituras de John Cage, são desenhos-sons provocadores que questionam o lugar do músico e do desenhista ao oferecerem um caminho não linear que instabiliza as formas tradicionais para pensar as relações de produção de música e imagem. Como construir uma imagem a partir de um som? A presente exposição nasce dessas inquietações, onde muitas perguntas buscam possíveis respostas ao escolher três sonoridades, Jazz, bossa nova e samba, para um exercício de percepção onde notas, ritmos e melodias alimentam o caminho criativo dos artistas que se utilizam da gravura em metal ( lavis, água forte e água tinta) para compor uma outra sonoridade sob o ritmo gráfico da prensa.                                                             
                                                                               Paulo Jorge Gonçalves


Meu texto no folder da exposição Notas Gráficas 

domingo, 24 de novembro de 2013

TOPOGRAFIAS DOS OLHAR - OSVALDO CARVALHO

Topografias do Olhar


Frente a um princípio científico estamos inexoravelmente imbuídos de um arcabouço teórico que compreende a realidade ou aquilo que univocamente entendemos como verdade. O olhar como método de estudo dos princípios necessários para a descrição e representação das superfícies é, diante daquela premissa, paradoxal, não possuindo os meios de quantificação, mensuração ou mesmo de exatidão da coisa em si, ainda que a perceba no seu todo. E é justamente aí que residem as artes visuais, no campo flutuante entre palpável e impalpável, analítico e abstrato, centrado e periférico, materializado e disperso, orgânico e inorgânico.

Nesse contexto cinco artistas de convívio intenso por um longo tempo vasculharam e evidenciaram em suas pesquisas artísticas as disparidades formais de suas criações que, contudo, no lugar de provocarem distanciamentos ou estranhamentos, criaram pontos de convergência que os uniram oportunamente. Cada qual, ao seu modo peculiar de encarar o embate frente o ato criador, estabeleceu parâmetros passíveis de desenvolvimento de um olhar topográfico sobre o mundo ao redor. Encontramos nas obras de Alexandre Alves o equilíbrio entre o tangível e o intangível em suas imagens capturadas de um instante. São como flutuações cromáticas de uma televisão sem sintonia, mas ao congelar o tempo em que elas se dão, ele tornou possível percebê-las em cada um de seus elementos constitutivos. Paulo Jorge Gonçalves tem como plataforma de investigação esmiuçar a simplicidade de determinados elementos num gesto contínuo e repetitivo, quase à exaustão, evidenciando uma energia pulsante em cada uma delas as quais trespassa e/ou funde abstrações num contraponto fervoroso que amplifica o gesto gráfico desse artista. Próximo a essas tratativas propostas por Paulo encontramos as propostas de trabalho de Gian Shimada que investe boa parte de suas reflexões nos descartes do próprio circuito de artes, momento que vincula sua produção ao caráter histórico que a arte possui ao mesmo tempo em que personaliza uma determinada linha crítica na qual atiça a brasa sobre questões de circuitos ideológicos cuja ação remonta aos anos da década de 70 do século passado. Marcelo Oliveira traz para o cenário imagético que constrói toda a dispersão possível do olhar cotidiano, aquele que se habitua à presença massiva da ordem que em dado momento o torna simplesmente invisível: são placas, letreiros, pichações, tudo junto num emaranhado informativo que se institui não mais por suas diretrizes convencionais, mas pela singularidade criada pelo acúmulo de ações aleatórias. João Moura, por seu turno, sustenta a necessidade de reportar topografias do corpo, do homem organicamente presente e ícone dos acontecimentos, também envolvido com o cotidiano, porém moldando alegorias contemporâneas, quase cruas em seu relato particular do mundo que vê.

Topografias do Olhar reúnem os relatos de artistas sensíveis ao seu tempo e abriga a diversidade de formas e conteúdos presentes nas suas obras, mas é antes de tudo um consenso de se permitir o convívio de diferentes maneiras de pensar e representar a vida.


Osvaldo Carvalho

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

CALOUSTE GRÁFICO


FEITURA DO RIO
SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA
COORDENADORIA DE ARTE E EDUCAÇÃO, LIVROS E LEITURA
CENTRO DE ARTES CALOUSTE GULBENKIAN
apresentam a exposição


CALOUSTE GRÁFICO

INAUGURAÇÃO
DIA 8 DE OUTUBRO ÁS 18 H

VISITAÇÃO : DE 9 A 31 DE OUTUBRO
DE SEGUNDA À DOMINGO DAS 10 às 18 h


CENTRO DE ARTES CALOUSTE GULBENKIAN
Rua Benedito Hipólito 125


GALERIA ISMAEL NERY
INTERCONEXÕES

Eduardo Denne
Fernando Ferrão
Fernando Reis Vianna
Gian Shimada
João Moura
Karla Gravina
Marcelo Oliveira
Márcio Goldzweig
Patrícia Burrowes
Paulo Jorge Gonçalves


Interconexões

O que une uma pessoa a outra? O que faz gêneros serem comuns? Qual a massa e a cola que ligam pensamentos? Qual a conexão entre universos tão ímpares do fazer/ser artista? Interconexões tentam desvendar (sem a menor pretensão) a ferramenta do processo gráfico que permeia, como fio condutor, propostas díspares, e ao mesmo tempo tão próximas, de 10 artistas que optaram por usar também a gravura como ferramenta. Não fechados a cânones nem a dogmas, mas livres para experimentar e buscar, a cada trabalho, mais e mais conexões. Paulo Jorge Gonçalves

SALA CALOUSTE GULBENKIAN - ALEXANDRE ALVES – XILOGRAVURAS

NO PRIMEIRO PISO PARTICIPARÃO OS SEGUINTES ARTISTAS:

CARINA BARROS > LOO STAVALE

ALEXANDRA MORIZOT

GABRIELA GASPARY

ARMANDO BARBOSA

ROBERTO TAVARES

CLAUDIA LYRIO

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

TEXTO PARA MOSTRA SPECIFIC - JARED DOMÍCIO


.SPECIFIC.



O termo site specific, no campo da arte, é utilizado para designar trabalhos que tem relação direta com os contextos em que são produzidos, onde a circunstância de realização do trabalho é um dado fundamental para sua existência. Alguns artistas se utilizam da estrutura dos espaços fisicos como referência, outros de informações políticas, culturais e sociais dos lugares tomados como condição para a execução da obra.
A exposição aqui apresentada é fruto do desafio de pensar e experimentar contextos particulares propostos por quatro artistas que possuem, em sua trajetória poética, um gosto por uma investigação pautada por desafios instigados por seus processos criativos em relação aos espaços expositivos. Não propomos um formato definitivo, mas uma exposição em estado de latência que poderia mudar a cada nova montagem devido ao caráter de mutação dos próprios trabalhos frente ao contexto com o qual são colocados a dialogar.
A artista Tereza Dequinta constrói seus desenhos a partir de suas histórias pessoais. Elabora, desenha, pinta e em alguns pontos-feridas borda com linhas que escapam da superficie da pintura e soltam-se no espaço expositivo em atitude de relação e presença com o lugar que ocupa.
Em outro ponto, o artista Francisco de Almeida busca o ar  para pensar seu trabalho em xilogravura. A leveza das formas nos leva a pensar não nas imagens individuais, mas no conjunto de xilo-bandeiras que tomam o espaço numa instalação que faz lembrar as festas populares e ao mesmo tempo que nos envolve em outro estado de percepção por estar sob uma rede de impressões que nos trazem outras leituras sobre as imagens tradicionais, assim como o artista Paulo Jorge Gonçalves, que também utiliza a xilogravura como matriz do seu trabalho. Neste caso, vemos a impressão cortada e colada na parede de forma similar a dos cartazes de rua, tomam o espaço de forma rizomática e adequam-se ao lugar de maneira orgânica. As formas lembram hemácias e outros componentes sanguineos dispostos como um fluxo corrente.
A artista Naiana Sousa nos leva a um universo de pequenas trajetórias, onde fragmentos de  percurso foram observados e registrados pela artista. As fotografas nos mostram as fronteiras entre ambientes frequentados pela artista e o video nos traz, de forma muito sutil, uma experiência de percurso de um terreno inóspito.
Olhar para esse universo de ideias também requer uma pré-disposição para estar atento a outras formas de perceber e se fazer consciente do espaço que cada indivíduo ocupa na galeria, na cidade, no mundo.


Jared Domício




domingo, 12 de agosto de 2012

TEXTO PARA EXPOSIÇÃO DESVIO PADRÃO


DESVIO PADRÃO
Ao delinearmos critérios que deverão ser aplicados na conceituação de uma exposição de arte lidamos com uma variável aleatória no que tange ao mérito criativo de cada artista que irá compor o conjunto da mostra a ser apresentada. Para este caso o paradigma parecia bem simples e direto porque falaria da gravura e suas técnicas. Contudo, o que se pautam em reflexões aprofundadas não pelo viés do manuseio instrumental, mas pela tenaz investigação crítica do artista e o seu lugar de pertencimento social.


Cada proposta dos artistas aqui envolvidos de se fazer representar é um indicativo vicejante da vontade de interagir, ou do contrário não trariam à luz suas criações. E justamente essas interações dão sentido aos processos de visualidades, formam a argamassa que sustenta todo o discurso que irá permear uma exposição, assim como as relações de afinidade se constroem fora do acaso, mediante acerto naquilo que tornarão cada exposição única - o consenso. Os contrastes são a fração menor e menos densa que podemos nominar em uma exposição.


Os trabalhos apresentados, longe de destacarem assimetrias, revelam diálogos prodigiosos em instâncias talhadas pelas questões concernentes à própria contemporaneidade as quais corporificam como veios naturais de suas faturas. É, a propósito, o que vemos nas obras de Marcelo Oliveira e João Moura ao descreverem cenas do cotidiano urbano sob o olhar de uma lupa que coloca em evidência o banal e o corriqueiro em um sarcasmo fugaz. Acentuando o caráter efusivo da acumulação e da repetição dados pertinentes de longa prática investigativa nas artes visuais, encontramos na cidade digital de Pedro Varela e no cordel de Gian Shimada, saturados de ironia, o desejo de ter, enquanto que Alexandre Alves em suas repetidas acumulações nos apresenta um emaranhado óptico de fragmentos/interrupções tal e qual se dão nas relações fugidias de nosso cotidiano. Esse núcleo de artistas traz então uma abertura contextual em que se desenrolam os trabalhos de Julio Castro e Roberto Tavares como indicativos do eixo Artista – Cidade em que uma subjetiva entropia formal é o germe da contínua reconfiguração do espaço e do tempo que eles manifestam de maneira contundente e incontornável. Confirmam essa máxima as obras de Lea Soibelman, Paulo Jorge Gonçalves e Karla Gravina, porém como uma tríade em que temos Artista – Cidade – Corpo. Lea traz um arranjo que serve de metáfora ao entendimento de nascer, viver e morrer. Há um único início e fim, mas muitas são as possibilidades de se viver, isto é, podemos escolher que caminho seguir. Paulo esmiúça esses caminhos e nos oferece a percepção dinâmica das escolhas que fazemos ao pulverizar pelas paredes sua árida poética de traços curtos e opacos. A organicidade estrutural, o corpo, ganha seu devido enfoque nas incisões que Karla confere às chapas radiográficas nas quais ela infiltra morfologias imaginárias executadas bela e docemente como se enfeites fossem mais que impregnações desconhecidas e estranhas àquele meio.


O desvio padrão em estatística trata de dispersão. Talvez seja esta uma das razões por que pouca coisa fique ou se entenda, como se costuma ouvir, de uma exposição de arte contemporânea. Talvez fosse o caso de se explicar que essa arte é a arte dos nossos dias, como os artistas veem e tratam dos temas de sua época. Talvez seja preciso encarar o fato de que da dispersão vivemos. Talvez tenhamos que entender que arte não é mais linguagem, e sim forma de pensamento.



Osvaldo Carvalho

2012

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

TEXTO DE MALU FATORELLI PARA O GRUPO CADEIRA VIRADA

CADEIRA VIRADA

Malu Fatorelli*


“Em arte o importante é aprender a linguagem e formar um vocabulário próprio. Dono dessa língua, pouco importa que a fala seja o óleo, o metal, ou a pedra. A letra de forma não melhora o pensamento!”
Cadeira Virada é o nome de um grupo, formado por cinco artistas, que apresenta seu trabalho na Galeria Cândido Portinari da UERJ. Em agosto de 2010, a convite do Departamento Cultural da UERJ, fui encontrá-los no ateliê do SESC Tijuca, com o objetivo de escrever um texto para essa exposição.
O encontro no ateliê do SESC lembrou-me da experiência na coordenação da Sala Imagem Gráfica . As exposições, apresentadas na Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage e na Galeria Cândido Portinari da UERJ, mostraram diferentes aspectos da produção gráfica de artistas contemporâneos. Um livro – Sala Imagem Gráfica 1992/1995 – reuniu artistas como Aluísio Carvão, Anna Bella Geiger, Carlos Martins, Paula Trope, Maria Lucia Cattani e Rubem Grilo, apresentando uma produção gráfica a partir de diferentes poéticas artísticas. A Sala encerrou suas atividades no final da década de 90 e, com certeza, foi uma experiência importante como observatório dessa produção. Aproveito para retomar algumas questões em torno do assunto com a exposição do Cadeira Virada.
O grupo Cadeira Virada é formado por João Moura, Marcelo Oliveira, Gian Shimada, Paulo Jorge Gonçalves e Rafael Kuwer e foi criado, inicialmente, com quatro artistas que pensavam em usar um quadrado ou um cubo como imagem e referência. Com a entrada do quinto participante o “equilíbrio” acabou e a cadeira “virou”. A condição de instabilidade, favorável à pesquisa artística, é expressa em um logotipo que mostra o desenho da silhueta de uma cadeira antiga em diferentes posições que contrariam a lógica da força da gravidade. (adesivo de parede)
A criação de grupos de artistas em torno de ateliês de gravura tem como referência histórica os Clubes de Gravura. Segundo Aracy Amaral , a produção da obra múltipla fundamentava-se na experiência revolucionária mexicana, e no Brasil, os Clubes de Gravura reuniram artistas trabalhando com preocupações sociais e políticas, no início da década de cinquenta.
No Rio de Janeiro, um espaço de referência para a prática da gravura foi o ateliê do MAM, aberto em 1959, que abrigou uma importante geração de artistas com trabalhos em torno da abstração informal .
É recorrente a existência de grupos de artistas e ateliês que lidam diretamente com processos associados à gravura. Muitas vezes, o uso compartilhado dos equipamentos e do espaço acaba determinando outras proximidades ou diálogos artísticos. Foi o que aconteceu no caso do Cadeira Virada. Os artistas se conheceram e se aproximaram a partir do convívio no SESC.
Uma questão relevante nas considerações desta apresentação está colocada na escolha da epígrafe do texto. É uma frase escolhida em uma das cartas de um livro que reúne a correspondência entre Mario Carneiro e Iberê Camargo (1953-1969) . As cartas trazem belos diálogos sobre arte em geral e gravura, em particular, mostrando relatos interessantes sobre as dificuldades de aprendizagem das diferentes técnicas e também de aquisição dos materiais. Nesse diálogo, evidencia-se a fala de Iberê no que concerne à questão da linguagem.
Falar de linguagem artística na contemporaneidade não é esquecer os meios técnicos ou os materiais, mas entendê-los na perspectiva das proposições poéticas. Retomando a fala do mestre Iberê: “Em arte o importante é aprender a linguagem e formar um vocabulário próprio”. Poderíamos olhar os meios técnicos como uma espécie de arqueologia da linguagem. A constituição da obra passa por meios específicos que são apreendidos e transformados pelos processos e metodologias do trabalho artístico.
Em se tratando de um grupo de “gravadores” essa questão se torna particularmente importante porque muitas vezes tal denominação generaliza e “cola” a poética a um determinado meio. Para minha surpresa, na medida em que nosso diálogo se desenvolveu no ateliê do SESC, as questões de linguagem foram tomando o lugar das discussões técnicas específicas e o universo gráfico se evidenciou como suporte de operações poéticas abrangendo aspectos da cidade, fabulações a partir de imagens capturadas no percurso cotidiano, personagens urbanos anônimos convocados à proximidade, diário de memórias afetivas familiares e jogos lúdicos a partir da repetição e da multiplicidade.
Nos trabalhos dos participantes do Cadeira Virada, em sua maioria, os processos tradicionais da gravura de arte como a litho, a xilo, o metal e a serigrafia sugerem diferentes combinações e associações com procedimentos individualizados, “inventados” nos processos de realização das obras, regidos pelas diferentes poéticas artísticas. Para minha surpresa, nenhum dos artistas realiza tiragens numeradas e assinadas, seguindo as especificações tradicionais. Muitas vezes, o procedimento transforma o múltiplo em original, e em alguns casos, o processo de impressão, seja pelo suporte ou pelas características da imagem, torna impossível a assinatura e inadequada a produção de uma tiragem limitada.
Mestres como Durer, no século XVI, assinavam suas gravuras na própria matriz de tal forma que cada reprodução trazia a marca do artista. A assinatura fora da imagem impressa é uma autentificação exigida pelo mercado que estabeleceu regras de identificação de autoria e quantidade. O que limita a tiragem não é mais a condição de reprodutibilidade da matriz, mas uma especificação dada pelo artista. Algumas obras contemporâneas tencionam esses procedimentos e tornam a imagem impressa parte de operações poéticas que, por razões conceituais ou processuais, não deixam espaço para a assinatura dentro ou fora da imagem.
No catálogo da exposição “L’EMPREINTE” , Didi-Huberman aponta que a impressão faz surgir do visível a questão do contato. É uma passagem cega, obtida sem mediações, entre matriz e imagem em formação. Essas passagens por contatos no interior da matéria introduzem uma dupla distância temporal: uma dimensão de origem arqueológica e imemorial e outra que desafia a história, pois se recusa a ocupar um lugar determinado na evolução do estilo. Na produção contemporânea a imagem impressa traz uma temporalidade imprecisa que, impossível de ser ignorada, tenciona relações entre pensamento, processo e gesto.
No trabalho do Cadeira Virada encontramos algumas referências a essas questões como, por exemplo, na obra de Gian Shimada, coordenador do ateliê do SESC. Formado pela Escola de Belas Artes (EBA) da UFRJ em 1992, foi aluno de Adir Botelho e conhece profundamente o universo das técnicas gráficas. Seu trabalho explora diferentes suportes propondo contaminações no espaço da cidade.
Gian utiliza para suas impressões xilográficas, em grandes formatos, um duplo suporte. Não mais as imaculadas folhas de papel de algodão, específicas para impressões gráficas, mas folhas do Mapa das Artes do Rio de Janeiro e os muros da cidade. Nesse trabalho, o suporte recusa um lugar de invisibilidade para assumir outros planos conceituais evocados pelo mapa e pela cidade. Bidimensionalmente, o mapa colorido que marca o lugar das galerias e instituições artísticas impõe à massa negra da imagem xilográfica um diálogo cromático, que também ironiza o desejo de pertencimento a um circuito ao permanecer colado do lado de “fora” nos muros urbanos.
A geografia do circuito artístico é tencionada por essas colagens que disputam o espaço com outros eventos da cidade, ao mesmo tempo em que instauram e conquistam outros territórios na relação entre arte, cidade, galeria e museu. Esse fato é reforçado pela utilização da xilogravura neste trabalho, pois a técnica que evoca a criação dos incunábulos é também a mesma da gravura de cordel, que na tradição brasileira, fala da vida cotidiana e é vendida na rua pendurada como roupa no varal. Assim, a escolha da xilo reafirma a proposição poética do artista no confronto entre pertencimento e exclusão de circuitos e lugares.
Diário de deslocamentos urbanos e registros de personagens anônimos são construídos por Marcelo Oliveira com matrizes “encontradas” no fundo de gavetas, mais precisamente, confeccionadas com pedaços de madeira ou aglomerados utilizados para fazer partes de móveis antigos desmontados e redescobertos pelo artista.
O trabalho de Marcelo, que antecede à série dessa exposição, era composto por elementos decorativos modulados e instalados em diferentes formatos sobre a arquitetura. O trabalho atual utiliza a modulação e a repetição para afirmar o anonimato. Uma espécie de galeria de retratos com rostos de múltiplos personagens aproxima pedaços do mobiliário com o movimento e a memória da passagem cotidiana do artista em seu trajeto pela cidade.
As marcas do fundo da gaveta guardam uma potência poética e formal que é intensificada com outros procedimentos como máscaras e estêncil. Os processos de impressão utilizados por Marcelo reforçam a presença do material, restos que revelam texturas para mostrar retratos de dentro e de fora, casa e cidade, contraponto de percurso e poética artística.
As imagens presentes na obra de Rafael Kuwer são retratos de uma série de trabalhos que tem a mesma idade de seu filho Mateus. Os desenhos de Mateus são inspiração, modelo e origem do trabalho paterno na construção desta arquitetura afetiva.
Rafael é professor de arte e trabalha com crianças em Paraty. Devedor das imagens infantis, ele coleciona desenhos do seu filho feitos em cadernos e folhas soltas. Essas imagens são o “suporte” para xilogravuras de diferentes formatos e também de vídeos que mostram aspectos de procedimentos gráficos como um jogo de montagem, colagem e impressão.
Parece impossível desvincular essas imagens de seu espaço íntimo, de seu lugar afetivo de quarto, de brinquedo e de cumplicidade entre pai e filho. O espaço da exposição incorpora a casa, o quarto, a parede azul, o tapete, a TV e o quadro com fotos e desenhos. Esses elementos pertencem ao trabalho, são a moldura e o lugar do afeto.
No trabalho de Paulo Jorge Gonçalves, técnicas gráficas se sobrepõem para formar uma linha que constitui um gesto gráfico construído a partir de sucessivos procedimentos que aludem a um jogo. Armar, desdobrar, montar, ocupar e expandir. Exercício lúdico para gravar um gesto e ocupar o espaço da arquitetura.
Ao relatar seu processo de trabalho, o artista Paulo Jorge revela que algumas imagens permanecem fixadas em sua memória e posteriormente são revisitadas e recortadas como pequenos pedaços de uma fotografia. Imagens que aparecem ao acaso, como a fumaça que sai de uma chaminé, determinam fabulações que geram desenhos, impressões e percursos gráficos.
A impressão é um processo na configuração de uma linha que é solta no espaço, é seu suporte e limite. Potência gráfica que se desdobra em diferentes possibilidades. Linha - objeto múltiplo e original. Provoca contaminações na arquitetura propondo um outro lugar, o lugar do jogo, do encantamento e do rigor inexato da matéria.
Dos artistas que compõem o grupo Cadeira Virada, João Moura trabalha mais especificamente com a xilogravura. Sua obra traz elementos de um realismo fantástico, comum a alguns artistas latino-americanos. Uma cartografia biográfica registra diferentes lugares onde o artista viveu.
Em um procedimento tradicional, terminada a tiragem, a matriz deve ser inutilizada ou guardada para que não haja reproduções além do número determinado pela tiragem. No trabalho de João Moura, as matrizes xilográficas são reaproveitadas.
Para reutilizar a matriz, João raspa a imagem original, mas essa raspagem não apaga completamente os registros da gravação anterior; deixa um resto ou rastro da imagem que flutua fixada entre uma e outra impressão. É como um palimpsesto, uma espécie de memória seletiva e interna ao processo que deixa ver extratos de tempos, lugares e personagens que povoam a obra do artista.
Ao apresentar o Cadeira Virada busquei uma aproximação dos domínios poéticos das obras dos participantes do grupo. Decifrar as “letras de forma” destas escritas sensíveis e atentas trouxeram muitas questões sobre as escolhas de cada artista. O ateliê pontua e aproxima a história de convivência do grupo, mas é também o lugar do desdobramento dos caminhos de cinco pessoas que apontam diferentes possibilidades de diálogo com a arte.

Epígrafe do Texto. CAMARGO, Iberê e CARNEIRO, Mário. Iberê Camargo/Mario Carneiro: correspondência. Rio de Janeiro: Casa da Palavra/ /Centro de Arte Helio Oiticica/ Rio Arte, 1999.


Sala Imagem Gráfica – trabalho realizado em colaboração entre a UERJ e o Parque Lage, coordenado por George Kornis, Nelson Augusto e Malu Fatorelli.

AMARAL, Aracy. Arte para quê? A preocupação social na arte brasileira 1930-1970: subsídios para uma história social da arte no Brasil. São Paulo: Nobel, 1987.

COCCHIARALLE, Fernando e GEIGER, Anna Bella. Abstracionismo geométrico e informal: a vanguarda brasileira nos anos cinquenta. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1987.

Epígrafe do texto. Opus cit.

L’EMPREINTE. Exposição realizada no Centro Georges Pompidou em 1997. Catálogo e curadoria de Georges Didi-Huberman.

Epígrafe do texto.Opus cit.
*Maria Luiza (Malu) Fatorelli é Doutora em Artes Visuais (EBA-UFRJ) e Professora Adjunta do IART-UERJ e da Escola de Artes Visuais do Parque Lage.

terça-feira, 4 de maio de 2010

TEXTO DA MOSTRA NO MARIA TEREZA VIEIRA - GRUPO CADEIRA VIRADA

A SEIS MÃOS

Estou muito feliz que estes artistas estejam aqui, mostrando seu trabalho no Centro de Artes Maria Tereza Vieira. Vejo neste grupo uma proximidade em relação a ela, pois além de artistas, têm um senso outro de estarem no mundo, com um sentido de contribuição e escuta que nos aproxima. Gian Shimada apresenta xilogravuras que comunicam o urbano, impressas em P&B sobre suportes variados, numa série de grafismos, luz e sombra expressionistas, de onde emergem faces, situações de confronto e solidão. João Moura desvenda uma série de pequenas gravuras com imagens oníricas e poéticas sobre a existência humana, onde as estruturas de composição se transformam a partir dos universos masculino e feminino. Marcelo Oliveira constrói campos através de repetidas séries de impressões e reproduções de um mesmo motivo/estampa. Estas imagens, que se surgem como azulejos, têm sua origem em estudos sobre obras de referência no período barroco brasileiro, como Mestre Ataíde. Aderidas a um suporte, obtendo assim um meio ilimitado de apropriações construtivas no espaço expositivo onde cada imagem tem em si sua potência individual que colocadas em conjunto constituem outras potências de expressão. Paulo Jorge Gonçalves, com impressões únicas e seriadas, aliados a técnica de monotipia, cria um vórtice de luz e sombra onde a linha branca, dentro do campo da escuridão, revela-nos um outro espaço a ser transposto, como uma fresta de luz, provocando e estimulando o campo visual sensorial. Rafael Kuwer traz obras que discutem o início, o fim e o recomeço de uma matriz que vai sendo sucessivamente gravada e impressa, realizando um conjunto de significados de ora vazio, ora pleno, e suas variantes do percurso ao seu extremo. Este primoroso trabalho de xilogravuras é fruto do olhar de um pai-artista sobre os desenhos do seu filho - Mateus de seis anos. No bojo, percebe-se uma discussão séria sobre o processo de arte educação – com isso a obra ganha força nesta relação, algo raro neste processo de pesquisa de fusão e produção de arte.

Otavio Avancini.